Sábado, Novembro 07, 2009

Livro sobre Heidegger reflete o estudo da ética na obra do pensador

Haron Gamal, Jornal do Brasil

RIO - Alexandre Marques Cabral propõe em Heidegger e a destruição da ética o estabelecimento de uma volta ao ethos, isto é, morada, no sentido original, a partir da filosofia de Martin Heidegger (1889-1976). Constatando que a crise do pensamento contemporâneo, sobretudo no Ocidente, é uma consequência da crise da própria racionalidade, a ética não estaria imune a ela.

O início dessa crise já aconteceria a partir de Aristóteles, com o estabelecimento do raciocentrismo, expandir-se ia com a escolástica, na Idade Média, e atingiria seu auge na modernidade. Retornando ao pensamento arcaico-originário, mais precisamente aos filósofos pré-socráticos, que por meio do discurso mítico-poético teriam condições de abordar ser e ente sem a fissura que passa a existir já no século 5 a.C. a partir do estabelecimento do logos e a realização da metafísica, seria possível pensar o dasein (“estar-aí”, existência, segundo Heidegger) numa perspectiva em que o espírito da letra predominaria com todo seu aparato de possibilidades de significação. O ser, segundo Heidegger, constituir-se-ia mais como verbo do que como substantivo, mostrando-se em constante realização, permitindo seu desvelamento /velamento cuja abordagem o aproximaria do universo da poesia, com todas as possibilidades da metáfora. A cristalização do pensamento racional criou conceitos e estabeleceu sob sua tutela certa tradição em que passaram a existir doutrinas filosóficas e leis morais que não acompanham o “estar-aí” – experiência permanente e essencial do ser – produzindo uma espécie de engessamento da reflexão.

O livro é dividido em três partes. Na primeira, o autor estuda O problema do ser e o dasein em ser e tempo, de Heidegger – pressupostos da ontologia fundamental necessários para a compreensão do conceito de ética originária presente na Carta sobre o humanismo, também de Heidegger. É interessante observar como Alexandre Cabral desenvolve os fundamentos e conceitos da filosofia arcaico-originária expostos pelo filósofo alemão. O autor brasileiro aborda a questão sobre o dasein de modo bastante explicativo, já que Heidegger é um grande desafio até mesmo para os pensadores profissionais: “A locanda onde o ser é achado, porque ali vigora, é o homem originariamente concebido. Dissemos 'originariamente concebido' porque, de forma alguma, como sempre o fez o pensamento ôntico, o homem é por Heidegger analisado objetivamente. Ele não é nem sujeito, no sentido moderno do termo, nem uma substância racional capaz de inteligir as essências objetivamente dadas dos entes, como pensou a tradição medieval, por exemplo”. Fundamental, da mesma forma, é o capítulo 3, em que é analisado o conceito de “ser-com”, porque é a partir dele que, na parte final, chegar-se-á à noção de solicitude.

Na segunda parte, o brasileiro apresenta “A ética originária e seus elementos”, delineia o percurso do pensamento arcaico-originário até o estabelecimento da metafísica, e distingue a concepção tradicional dos conceitos de Heidegger. Ao mesmo tempo, é muito importante o tópico “Linguagem e poesia”, em que a ética é apresentada como po-ética, isto é, uma concepção de ética baseada na linguagem. Se o dasein é o ente realizando-se na plenitude do ser, no ato constante de ek-sistir, nada melhor do que a linguagem poética, em seu espírito original de criação e revelação, como espaço de desvelamento do ethos.

Na terceira parte, Alexandre Cabral propõe a destruição da ética tradicional, isto é, uma espécie de abandono dos princípios morais cristalizados pela tradição, os quais já não mais seriam capazes de acompanhar o ato de realização do ser na contemporaneidade.

A questão sempre presente, o estabelecimento de uma nova ética, é que ela não se prenderia às ideias morais, mas levaria a existência a uma espécie de não-esquecimento do ser, coroando-o com a perspectiva de solicitude, um comportamento que, ao mesmo tempo, o tornaria aberto para os outros e colocaria o existir numa perspectiva de não-esquecimento desse mesmo dasein.

Pensar a ética a partir de Heidegger nos leva a duas questões fundamentais: a primeira é que sua concepção de ser, ao tentar escapar do raciocentrismo aristotélico, leva a filosofia de volta aos pensadores pré-socráticos e acaba por permitir uma forma do pensar fora da razão tradicional numa modernidade em que a própria ratio se acentuou realizando-se como tecnocentrismo (segundo o filósofo alemão uma das causas do esquecimento do ser); a outra perspectiva envolve o próprio Heidegger, como cita Alexandre Cabral ao tentar argumentar que a pessoa do autor não deve predominar sobre a obra. O filósofo da Floresta Negra envolveu-se com o nazismo, defendeu-o e formulou questões teóricas que o justificavam. O fato de dizer que Heidegger permaneceu pouco tempo filiado ao Partido Nacional-Socialista, afastando-se logo a seguir, e que foi perseguido por ter renunciado ao cargo de reitor da Universidade de Freiburg não o isenta de participação em um dos regimes mais cruéis do século 20. Aqui se estabelece o paradoxo da utilização da filosofia como teleologia (doutrina que identifica a presença de fins guiando a humanidade). O pensar como reflexão é uma coisa, mas o estabelecimento de um arcabouço teórico com a intenção de gerar algum tipo de ação, ou mesmo de discutir comportamentos, de antemão já é problemático, tanto mais quando inspirado no autor de Ser e tempo. A filosofia heideggeriana não se restringe apenas à ética, sabe-se disso, a questão principal é a existência como discurso. O estabelecimento de uma ética a partir de um filósofo controvertido como Heidegger, no entanto, caso um dia venha a vigorar, será uma grande ironia da história.

O que deve ser bastante elogiado no livro de Alexandre Marques Cabral é a apresentação pormenorizada e didática do pensamento de Heidegger, tornando o filósofo assimilável até mesmo para o público externo ao universo acadêmico.

Quinta-feira, Outubro 01, 2009

Sebald revela a dor e a melancolia dos refugiados em Os emigrantes

Haron Gamal*, Jornal do Brasil

RIO - O século 20, no seu início, apresentava-se como um período pleno de possibilidades. A ideologia do progresso e a perspectiva de um futuro que trariam soluções para a maior parte dos problemas humanos pareciam dignas de credibilidade.

A arte soube captar bem o espírito da época, tanto a favor como contra. A vanguarda europeia mostrou-se sensível ao expressar suas inquietações sobre um passado que insistia em se fazer presente tanto nas concepções artísticas tradicionais como no modo de vida, ainda carregado de tinta dos oitocentos. A obra de Proust é rica em fazer desfilar uma sociedade em que homens e mulheres relutam em abandonar valores nobiliárquicos e um tom em que predomina o apreço pelo antigo. Não se quer dizer que a leitura de Proust não seja adorável. Talvez seu sucesso aconteça devido a isso: retrata um mundo que já desapareceu ou está em vias de desaparecer, um modo de vida que grande parte das pessoas gostaria de ter vivido em todo esplendor.

No início do século 20, concepções futuristas vão tentar dinamitar o passado e apostar o futuro da humanidade na máquina. Tal modo de ver o mundo não é novo. Muitos séculos antes, o homem do renascimento já expressava a opção pela vida secular e começara, ali, a apostar suas fichas em algum tipo de engenho.

Marinetti, porta voz do futurismo italiano, na primeira década dos novecentos, chega a propor a destruição dos museus e das obras de arte do passado, colocando em primazia o engenho mecânico.

Depois temos Joyce, que já nos apresenta um tipo de herói que é fruto da modernidade; o homem fragmentado, um Ulisses que precisa juntar os cacos de suas 24 horas para que a existência tenha sentido. É interessante observar que o escritor dublinense publica sua obra máxima no ano da morte de Proust – 1922. É como se o século 19 tivesse terminado definitivamente para dar lugar ao século 20.

A literatura de W. G. Sebald (1944-2001) apresenta o resultado de um período em que o humano foi deixado de lado, quando a ênfase da vida se voltou para o negócio, para a indústria, para a economia. Foi no começo do século passado que a educação e a cultura começaram a voltar-se para a produtividade.

Os emigrantes focaliza essa questão. Quem são os personagens que ali desfilam, plenos de saudade e de melancolia? Tudo leva a crer que, impelidos pela necessidade da partida, esses seres deixaram seus lugares de origem para tentar a vida em países distantes, longe da família e envoltos em total solidão. Não importa qual o motivo, se econômico ou político – aqui entram os refugiados, como os judeus e os foragidos dos regimes totalitários.

Na literatura desse autor alemão, que trocou cedo seu país pela Inglaterra, onde trabalhou como professor de literatura e morou até morrer, percebe-se o lugar provisório em que ele e seus personagens se situam. É como se sentissem desconfortáveis na condição de emigrantes. Mas será que teriam para onde voltar?

O livro é constituído de quatro relatos. Em todos eles, Sebald faz um inventário dos escombros do passado através da vida pregressa de cada personagem. Um trecho da primeira história é emblemático. O narrador, que nunca tem um pouso definitivo, informa: “Tivemos, dr. Selwyn e eu, uma longa conversa cujo ponto de partida foi sua pergunta se eu nunca sentia saudades de casa. Eu não soube direito o que responder, mas dr. Selwyn, após uma pausa para reflexão, confessou-me – outra palavra que não faz jus à situação – que no curso dos últimos anos fora tomado cada vez mais pela nostalgia”. A conversa ocorre no início dos anos de 70, na Inglaterra, e o personagem que dialoga com o narrador é um cirurgião aposentado, cujo objetivo de vida é apenas cuidar do jardim e de alguns animais; ele mesmo é um emigrante, mas deixara a distante Lituânia aos 7 anos de idade, precisamente em 1899.

A segunda narrativa começa com a seguinte informação: “Em janeiro de 1984, chegou-me de S. a notícia de que na noite de 30 de dezembro, uma semana após completar 74 anos, Paul Bereyter, que fora meu professor no primário, dera fim a sua vida ao deitar-se na frente de um trem a pequena distância de S., onde os trilhos desviam em curva do pequeno bosque de salgueiros e ganham campo aberto”.

Em cerca de 80 páginas, o narrador investigará as causas do suicídio do ex-professor, mas chegará apenas a conjecturas, o verdadeiro motivo ele não conseguirá descobrir. No final, sabemos que Bereyter viveu seus últimos dias na França e voltou à Alemanha para dar fim à própria vida.

Ambros Adelwarth dá nome à terceira história. Trata-se de um tio-avô do narrador que havia muito emigrara para os Estados Unidos (levando neste país uma vida extravagante) e volta para visitar a família uma única vez, no verão de 1951, quando o próprio narrador tinha apenas 7 anos. A impressão que causa em sua mente é tão forte, que ao tornar-se adulto, ele viaja à América em busca da história desse tio, que na ocasião já falecera. Recebe de uma tia a caderneta onde Ambros fazia anotações, descobrindo parte de sua vida e de suas viagens pelo mundo como pajem e companheiro de um milionário americano.

A quarta e última história inicia-se com o narrador chegando à Inglaterra como imigrante, num voo noturno: “Até meus 22 anos, nunca me afastei de casa mais do que cinco ou seis horas de trem, e por isso, quando no outono de 1966 decidi, por diversas razões, mudar-me para a Inglaterra, eu mal tinha uma idéia apropriada de como era o país e como eu, dependendo apenas de mim mesmo, me arranjaria no estrangeiro”. O narrador chega a uma Manchester fuliginosa, permeada por ruínas. Conhece então o pintor judeu-alemão Max Ferber e convive com ele. Anos mais tarde, quando Ferber, já famoso, encontra-se velho e doente, entrega ao narrador um pequeno diário com uma narrativa escrita pela própria mãe, na Alemanha, que contém a história dela e do modo de vida de uma geração que antecedeu à Segunda Grande Guerra.

Em todos os contos, suspeita-se que o narrador, de quem nunca sabemos o nome, seja o próprio Sebald. Ele sempre está às voltas com uma espécie de arqueologia, escavando o passado das pessoas e acabando por lhes dar vida própria. E, por mais simples que essas vidas tenham sido, sua narrativa consegue envolver todas elas num quê de importância, de algo único, cuja perda significaria a perda da própria poesia.

O que resta a esses personagens, que se perderam num constante exílio, é a representação de seu não-lugar através da arte, como ocorre a Ferber, que “trabalhava desde o final dos anos 40, 10 horas por dia, o sétimo dia inclusive. (...) Eu não cansava de me admirar de como Ferber, ao final de um dia de trabalho, produzia um retrato de grande vividez com as poucas linhas e sombras que haviam escapado à destruição”.

Assim também se apresenta a literatura de Sebald, quadros com grande vividez, que retratam, apesar do lugar sempre frágil que o ser humano ocupa, um momento máximo de lirismo, mesmo que depois sobrevenha a morte.

* Professor de literatura e doutorando em literatura brasileira pela UFRJ


Quinta-feira, Setembro 03, 2009

Edição de 'Dialética negativa' marca os 40 anos de morte de Adorno

Haron Gamal*, Jornal do Brasil

RIO - O século 20, com suas duas guerras mundiais, revoluções e conflitos localizados, foi mais do que suficiente para fazer ruir tentativas de explicações totalizantes insinuadas pelos sistemas de pensamento (metafísica ou filosofia) que, até o século 19, tentaram dar conta tanto da natureza humana, com suas formas e meios de manifestação e reflexão sobre o próprio estar no mundo e suas conseqüências, como da história. Hegel foi o último filósofo a elaborar um sistema que, a partir de pares opostos (ou em contradição aparente) levaria à síntese. Daí à elaboração do método, resultado de um engenhoso sistema de materialização do conhecimento, tentativa de estabelecer o caminho para validar o que se convencionou chamar de saber científico. Ao mesmo tempo, a questão para ser levada avante precisava de um sistema lógico ideal, que não tivesse em conta as idiossincrasias do homem e daquilo que se convencionou chamar de história.

Ênfase na subjetividade

Theodor Adorno nasceu em 1903, viu cair por terra todos os sistemas lógicos surgidos no percurso da filosofia, percebeu a ênfase na subjetividade em um tempo em que o objeto – o outro, aquilo que se apresenta fora do sujeito – mostrava-se insuficientemente explicado pela lógica, incluída aí a própria filosofia. Adorno viveu o desbaratamento da intelectualidade alemã durante o surgimento e crescimento do nazismo – o próprio regime hitlerista foi um dos absurdos que a filosofia não soube explicar. Precisou exilar-se na Inglaterra e, depois, nos Estados Unidos. Voltou a seu país, a Alemanha, depois do fim da Segunda Guerra.

O pensador alemão propõe em Dialética negativa uma dialética que não só convive com os contrários no método de análise, mas também na apreciação do objeto como algo com linguagem própria, dessemelhante do sujeito. Opondo-se a Hegel e mesmo a Heidegger, a quem acusa de posições idealistas quando trata da subjetividade em Ser e o tempo, Adorno contesta o conceito idealista de objeto, mostrando em primeiro lugar que toda reflexão, por mais pura que tente se apresentar, traz um rastro de mundaneidade do qual é incapaz de se desvencilhar. Num segundo momento, sua reflexão se dirige à análise da ontologia e suas aporias.

Só então, depois de mostrar as lacunas e os trâmites escorregadios pelos quais envereda Hegel, parte para apresentação de sua dialética, que não deixa de trazer em parataxe a coexistência com a diferença, com as contradições do ser humano e com a história.

A segunda parte do livro aborda o tema proposto pelo autor, apresentando conceitos e categorias; a terceira tem como título “Modelos”, com os seguintes tópicos: “Liberdade”; “Espírito do mundo e história natural”; e “Meditação sobre a metafísica”.

A crítica à filosofia da identidade, empreendida por Adorno, centra-se na afirmação de que a subjetividade, ao visar o objeto como meio de este estar apenas disponível a seus interesses, não observa nele o que lhe é contrário ou diferente. Uma vez que o almejado no não-semelhante está apenas em demonstrar a hipótese daquele que empreende a busca, só é levado em conta, no segundo elemento, o que tem de semelhante no próprio sujeito – o oposto visado teria algo que identifica a esse mesmo sujeito. Daí pretende-se chegar à síntese. As outras contradições imanentes ao objeto, que estão fora dos interesses do sujeito, não são levadas em consideração. Portanto, o método desenvolvido a partir da dialética hegeliana acaba não só sendo apropriado pela ideologia, como servindo à legitimação de seus interesses. Essa mesma ideologia avalizará todo o processo científico e a expansão do sistema de troca. Em sua extremidade, chega-se ao conceito de indústria cultural, que, ao fazer jus a todo o percurso, apresenta-se de maneira avassaladora como verdade, tornando difícil, ou mesmo impossível, a crítica a partir do aparelhamento resultante de todo o processo.

A Dialética negativa na verdade complementa, por confirmação filosófica, os conceitos críticos desenvolvidos por Adorno e Horkheimer na Dialética do esclarecimento. Em palavras do próprio autor: “A dialética enquanto procedimento significa pensar em contradição em virtude e contra a contradição uma vez experimentada na coisa. Contradição na realidade, ela é contradição contra essa última. Uma tal dialética, porém, não se deixa mais coadunar com Hegel. Seu movimento não tende para a identidade na diferença de cada objeto em relação a seu conceito; ela antes coloca o idêntico como suspeita. Sua lógica é uma lógica da desagregação: da desagregação da figura construída e objetivada dos conceitos que o sujeito cognoscente possui de início em face de si mesmo. A identidade dessa figura com o sujeito é a não-verdade. Com ela, a pré-formação subjetiva do fenômeno se coloca diante do não-idêntico, do indivíduo inefável. A suma conceitual das determinações idênticas corresponderia à imagem dos sonhos da filosofia tradicional, à estrutura a priori e à sua forma arcaísta, à ontologia”.

Idealismo sem verdade

Não mais seria possível, assim, o método lógico hegeliano, porque este, a partir do descarte das contradições presentes no objeto, apelaria por um idealismo que não corresponderia à verdade em nenhum período da história humana. O método hegeliano apresentar-se-ia como tout a coup para introduzir uma filosofia do progresso, já encetada a partir do iluminismo.

No ano de 1969 Adorno – que morreu há 40 anos – foi acusado pela esquerda alemã de não levar à prática seus escritos críticos. A partir do movimento estudantil que sacudiu a Europa, ele foi acusado também por Marcuse, que se colocou ao lado dos revoltosos. O alemão respondeu que não era sua incumbência traçar um plano de ação, que não se destinava a ele elaborar qualquer tipo de práxis ligada a sua teoria. Em determinado momento, falou que a própria pesquisa crítica já era um tipo de práxis. Em outras palavras: o exercício do pensamento já se mostraria a própria práxis, porque liberaria o ser humano dos instrumentos de dominação.

* Professor de literatura e doutorando em literatura brasileira pela UFRJ.

Quinta-feira, Agosto 06, 2009

Romance da alemã Juli Zeh tem como base a filosofia de Nietzsche

Haron Gamal*, Jornal do Brasil

RIO - Há uma passagem em A menina sem qualidades, de Juli Zeh, em que Alev, um estudante de 18 anos (meio egípcio, um quarto de sangue francês, cresceu na Alemanha, na Áustria, no Iraque, nos Estados Unidos e na Bósnia-Hezergovina) entra junto com Ada, uma menina de quinze anos – sua cúmplice – na sala de informática do colégio onde estudam, senta num boxe e grita: “Heil Hitler!”.

Tais dizeres não significam qualquer tipo de saudação neonazista, mas sim um teste: ambos praticam, naquele momento, um jogo arriscado, e o rapaz deseja se certificar de que os outros jovens que ocupam o mesmo local o estão escutando. Após o chamado e após perceber que ninguém lhe dera a atenção – todos estão mergulhados na rede e com fones no ouvido – ele deduz que pode conversar à vontade com sua companheira de turma enquanto instala um programa clandestino na página da escola, possível de ser acessado por uma senha que apenas ele e Ada conhecem e, mais tarde, o professor chantageado.

Fato periférico

O breve episódio – o fato de ter gritado o nome de Hitler – é periférico na longa narrativa de 508 páginas, mas a autora, ao colocar a saudação na voz de um jovem não-alemão, alguém oriundo do mundo árabe e com passagem por vários países, não cometeu a ação por acaso. É a única vez em que o nazismo é mencionado, e em apenas um momento do romance insinua-se sobre a Segunda Guerra.

O comparecimento da saudação, no entanto, deixa o leitor de sobreaviso. A história é ambientada numa Alemanha pós-11 de Setembro e contemporânea aos atentados de Madri. O romance também não salta em flashbacks com o objetivo de investigar o passado recente do país. Portanto, o que poderia nos revelar a saudação?

Mesmo tendo em consideração as atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra, seria o comportamento dos jovens naquela sala, isolados entre si através de suas torres e fones, imersos cada um no seu próprio mundo, semelhante ao comportamento alienado do mesmo povo durante os anos do Reich? Estariam todos contaminados pelo pior flanco da mundialização e entregues mais do que nunca à ideologia de mercado, fato que leva os dois protagonistas a encetar uma aposta em que o único objetivo digno da existência é um tipo de jogo? Talvez seja isso que leva Ada a dizer que é uma mulher sem alma, isto é, sem essência e consequentemente sem particularidades.

Aqui precisamos falar sobre outro livro, também pertencente à cultura germânica e que declaradamente serve de matriz para o romance em questão: O homem sem qualidades, de Musil. Maurice Blanchot, em um artigo que fazia parte da coletânea O livro por vir, diz o seguinte: “O homem sem particularidades é o homem que tem, por vocação e por tormento, de viver a teoria de si mesmo, o homem abstrato que não é e não se realiza de maneira sensível”.

O mesmo Blanchot, ao discutir a tradução do título do livro de Musil para o francês, acrescenta: “Acho que eu teria ficado com a tradução mais simples, a mais próxima do alemão e a mais natural em francês: L'homme sans particularités [O homem sem particularidades]. A expressão 'o homem sem qualidades', embora de um uso elegante, tem o inconveniente de não ter sentido imediato, e a de deixar perder-se a ideia de que o homem em questão não tem nada que lhe seja próprio: nem qualidade, nem tampouco nenhuma substância. Sua particularidade essencial [...] é de que ele não tem nada de particular. É o homem qualquer, e mais profundamente o homem sem essência”. Embora seja outro o contexto em que o autor vienense escreveu seu extenso livro, enfocando a perda dessas particularidades diante do fim do Império Austro-Húngaro e da marcha da modernidade, o livro intensifica a questão.

Ada afirma: “Somos netos dos niilistas”. Mais adiante, ao depor em defesa de um amigo: “Pode acreditar em mim quando digo que me interesso muito pouco pela minha alma quanto pela sua ou pela de qualquer outra pessoa. Eu nem sequer acredito na existência dela. 'Alma' é um nome para a tentativa famigerada dos homens de se elevar por sobre o mundo dos objetos. [...] Mas quem se atreve a dizer que os homens não têm alma, colocando-o no mesmo nível dos outros fenômenos móveis e imóveis daquele conglomerado de causalidades que estamos acostumados a chamar de 'mundo', porque soa bonito e não diz nada, este se torna suspeito de ser um misantropo, um apoiador da eutanásia e um fã da tecnologia genética, mas, antes de tudo, um ser humano frio. Como se a alma fosse a sede do bem no ser humano! Uma alma é um espaço vazio retorcido em forma espiral, por dentro do qual voa uma bala de pistola. Onde está a alma quando os alemães marcharam em direção a todos os pontos cardeais a fim de molestar metade da crosta terrestre espalhando morte e destruição? Onde está ela quando crianças jogam futebol com as cabeças decepadas de outras crianças?”.

Pacto fáustico

Por isso, a ausência de particularidades revelaria um homem que não vive mais o mundo sensível nem se incomoda com a existência de sentimentos nobres. Talvez seja essa questão que faz o tradutor Marcelo Backes dizer, no seu esclarecedor posfácio, que “Ada faz com Alev um pacto fáustico sem precisar dar em pagamento uma alma que já não tem”. O romance tem como base filosófica Friedrich Nietzsche, com os conceitos de “vontade e poder”, “eterno retorno”, “super-homem” mencionados diretamente. O conceito predominante, no entanto, parece ser o de “amor fati”, única saída num mundo desprovido de crenças e ilusões. “Amor fati” significa “o dizer-sim dionisíaco em antítese à constante negação promovida pelo cristianismo”, segundo Backes.

A narrativa possui várias outras referências à filosofia e à literatura. A história, suas marchas e contramarchas, conceitos e definições também comparecem através do professor Hofi, um dos personagens mais interessantes do livro, depois de Ada, e que vale a pena ser observado com atenção.

O enredo poderia se resumir ao seguinte: uma aluna recém-chegada ao colégio Ernst Bloch (Bonn, Alemanha), mostra-se o contrário das princesinhas de plantão, tanto fisicamente como em leitura e conhecimentos, sendo capaz de duelar e vencer os professores mais perspicazes. Mas dizer que a questão se limita a isso é diminuir, e muito, o valor da narrativa. O que vai intensificar o conflito é a chegada de outro personagem, cuja teoria de vida nada mais é do que um grande jogo, em que predominam instintos de sobrevivências e não a existência de valores. Os dois, juntos, vão chantagear Smutek, um polonês imigrante, professor de germanística.

A narradora é uma surpresa a mais, o que mostra a perda de rumo da justiça, num mundo onde não há mais em que se ancorar. A menina sem qualidades revela a grande cultura dos escritores europeus de nova geração, como Juli Zeh, que conseguem perceber os instrumentos de dominação e dissecar os mecanismos de funcionamento de uma sociedade em que não mais existem parâmetros para nenhum tipo de crença ou valor.

* Professor de literatura e doutorando em literatura brasileira pela UFRJ

23:22 - 10/07/2009

Quinta-feira, Julho 16, 2009


Sob a luz e sobre a tela

Novo livro de Alexandre Brandão tem como foco o cinema e a literatura

A ditadura militar a gente não esquece. E é bom que seja assim. Melhor ainda é sempre ressaltar a face mais nefasta do regime que se instalou através de um golpe em primeiro de abril de 1964 e permaneceu no poder até meados dos anos de 1980. O livro de Alexandre Brandão cumpre a honrosa tarefa de não deixar a resistência aos militares passar em branco, não por tratar diretamente do assunto, mas devido ao fato de que a descoberta de um personagem colaboracionista causa desconforto e desagregação entre os integrantes de um grupo de amigos, na verdade escritores, no final de uma das narrativas.

A câmara e a pena, seu último livro, é constituído por duas novelas. A primeira tem como foco o cinema. Dividida em cinco partes, retrata o dia-a-dia de filmagem de um longa-metragem. A narrativa coloca sob suas luzes não propriamente a história a ser exibida nas telas, mas as feridas provocadas por um caldeirão de vaidades que flamam durante a própria filmagem. Os diversos profissionais sentem-se no direito de se colocar com ares de superioridade em relação aos companheiros. Qualquer tentativa de inovação é seriamente criticada e vista com muita desconfiança. Na verdade, a desculpa de que cada um tem um nome a zelar é útil apenas para bloquear a possibilidade de vôo maior daqueles que estão ao lado. Um diretor estreante, bem sucedido apenas com um curta-metragem, enfrenta toda a sorte de dificuldades, inclusive no espaço de sua vida particular. Vícios e frustrações vividos por membros da equipe também vem à tona, trazendo no bojo vários tipos de disputa, desde o desejo sexual pela moça bonita, assistente de produção, ou pela simpatia dos produtores.

Mas o que se pode perceber com mais intensidade não é o que vem à superfície, mas algo inerente a todo o ser humano: a doença, a decadência e a morte; mesmo que venha através de um suicídio. Uma atriz em fim de carreira é protagonista, não só do filme, mas também da narrativa. É ela quem determina o desfecho. A morte também trafega nas águas do jovem diretor, mas surge metaforicamente como perspectiva de fracasso profissional.

A segunda narrativa também é muito interessante: aborda um grupo de amigos, na verdade escritores, que se reúnem num café, todas as quintas, com a intenção de discutir seus textos e suas vidas.

Tendo como cenário o Rio, o grupo, que não deixa de trocar textos e mensagens eletrônicas durante a semana sempre visando ao encontro, reflete a fragilidade do ser humano numa cidade pulverizada pelo gigantismo, onde possibilidades culturais e criativas se apresentam diluídas. A novela tem como tema a solidão e o abandono a que todos estão submetidos. O grupo, apesar das diferenças, se mantém coeso até o aparecimento de um casal de idosos, que, sobretudo a mulher, deseja conviver entre os escritores. Uma coincidência acaba por colocar a todos diante da questão que não poderia passar em branco: a ditadura militar.

A câmera e a pena também pode ser visto como a tentativa de recuperar uma irmandade de escritores, numa época em que se multiplicam as oficinas literárias. Seus membros são dissidentes de uma delas. O autor não deixa incólumes os escribas profissionais que tiram seu sustento prometendo perspectivas de sucesso aos jovens que desejam ingressar no mercado editorial.

Outro aspecto de seu pequeno e muito bonito livro é trazer à lembrança fatos ocorridos em meados do século XX, quando, em Paris, grupos de escritores reuniam-se em cafés, para discutir filosofia e literatura. Tais episódios não são mencionados diretamente, mas aqueles que viveram o período ou estudaram sua importância sentem uma espécie de “busca do tempo perdido”.


A literatura brasileira atual não carece de bons e experientes escritores. Alexandre é um deles. Trata-se de seu terceiro livro, o que testemunha o bom momento do autor.

Eis um trecho, na segunda novela, que sela o destino do grupo:

“Teco foi pela escada para, com o tempo, pensar em alguma saída. O que fariam com Dona Rosário? Se arrependimento matasse, quem estaria descendo aquelas escadas seria um fantasma muito do mixuruca, cordato e obediente, assustado mais do que assustador. Não bastasse a fauna dos escritores – o senhor corneado por puta, a dona sabe tudo, o excelentíssimo gordo fujão, a gracinha da Clara, com essa não esculachava, e ele na pele do trouxa que acreditou na superioridade dos escribas –, o clube aceitou no quadro de sócios outro com tendência ao fracasso.”

É importante ressaltar que, apesar da possibilidade de “fracasso” desses seres, há segmentos de poemas e contos, atribuídos a eles, que atestam o ótimo trabalho artesanal com a linguagem saído das mãos de Alexandre Brandão.

A câmera e a pena – duas novelas
Alexandre Brandão
Editora Cais Pharoux, l56 páginas

Sábado, Junho 27, 2009


Pornografia - Witold Gombrowicz


Literatura polonesa e tango argentino

Ao ler uma obra literária, sobretudo de ficção, podemos seguir dois caminhos. O primeiro nos levaria a depositar fé no que diz a narrativa, acreditar nos fatos, enfim, embarcar na fantasia. O segundo seria desnudar o artifício, procurando enxergar como o autor trabalhou seu texto, como construiu seus personagens, de que modo arquitetou a trama, como desenvolveu a questão que aparece em primeiro plano e descobrir, a seguir, os planos subsequentes, que muitas vezes estão ofuscados pelo que o texto apresenta como principal.

Pornografia, de Witold Gombrowicz, é um livro que possibilita algo mais do que apenas experimentar uma boa história. Para começo de conversa, o narrador se coloca como o próprio autor, tendo inclusive o mesmo nome. Em seguida, os acontecimentos se passam na Polônia de 1943, em plena ocupação nazista. Gombrowicz, no entanto, não estava lá. Ele, o autor, embarcara num cruzeiro às vésperas da Segunda Guerra Mundial, para a América do Sul. A Polônia foi invadida pelos alemães; o resto é história. O escritor não pôde retornar; acabou ficando 24 anos na Argentina, tendo trabalhado em diversas profissões e vivido em extrema pobreza. Ainda lá, escreveu boa parte de sua obra. Quando voltou à Europa, radicou-se na França, onde obteve reconhecimento crítico.

Pornografia nada tem de pornográfico no sentido como se entende a palavra nos dias de hoje. Mas caso o leitor se mostre atento para a exposição da beleza e da juventude que atravessam todo o romance, o livro se torna profundamente pornográfico.

Em meio ao círculo intelectual de uma Varsóvia oprimida pelo nazismo, emergem dois personagens que decidem fazer uma viagem ao campo. Um deles é aquele que narra, o outro é um homem que conheceu Witold havia pouco e demonstra admiração pelo escritor: chama-se Fryderyk. Embora seja época de guerra, a narrativa se desvia do conflito para a beleza juvenil, principalmente quando ambos descobrem, na casa de campo em que ficam hospedados, um casal de jovens: Henia, a moça; Karol, o rapaz. Os dois, na verdade, são amigos desde a infância. Fryderyk e Witold tramam para que o casal permaneça junto, apesar de Henia ter um noivo. Gombrowicz deixa a guerra em segundo plano ao fazer o narrador e seu amigo investigarem os dois jovens. Estes aceitam participar do jogo, que pouco a pouco se mostra perigoso, tornando-os cúmplices numa ação comprometedora. Na verdade, o escritor em vez de criar personagens que resistam ao invasor empunhando uma metralhadora, prefere apostar na juventude e na beleza como meio de perceber uma nova Polônia, capaz de ressurgir das cinzas. Ele denuncia, através do casal, a falência de um país e de um continente decrépitos e a crença num futuro melhor. Não que esperasse por uma paz eterna, mas por um mundo em que a arte e a vida fluiriam através de corpos e mentes jovens.

Na movimentação dos habitantes da fazenda, tanto no próprio local como nos arredores, surge o ambiente da ocupação alemã.

Numa viagem que o narrador e Karol fazem numa carroça com a intenção de comprar querosene na cidade vizinha, a tensão da guerra transparece: “...chegamos a Ostrowiec, fazendo um barulho infernal e saltitando sobre os paralelepípedos, a ponto de nossas bochechas tremerem. Passamos pelo posto de controle alemão diante da fábrica; a cidadezinha era a mesma de antes, exatamente a mesma, com os mesmos prédios fabris e as mesmas chaminés dos altos-fornos, seus muros e, mais ao longe, a ponte de Kamiena, os trilhos do trem e a rua principal que levava à praça central, com o café Malinowski na esquina. Apenas uma certa ausência podia ser sentida – não havia judeus.”

Toda uma trama para assassinar um líder da AK – organização de resistência ao invasor – porque desistira de lutar contra os alemães envolve os homens da fazenda, incluído Karol e Waclaw, o noivo de Henia.

Embora o inimigo alemão mostre-se apenas através de um soldado bêbado, a ocupação joga os poloneses uns contra os outros, fazendo que desprezem a amizade, não poupando aqueles que se mostram suspeitos. Na intenção de virar o jogo, vale tudo para manter a esperança de libertar o país. O problema é que o inimigo acaba por se tornar o próprio compatriota, e o espelho da opressão está principalmente nas relações que se instauram a partir do universo familiar.

Outra questão em Pornografia, ao mapear a juventude e mostrar o interesse de dois homens maduros pelo período da existência em que predomina a beleza, a vitalidade e o ardor, seria trazer à tona a pulsão de vida que existe num período de profunda opressão.

Na Europa, em todos os países ocupados pelo nazismo, havia a Resistência. Para o autor, a verdadeira ação não estaria apenas nas mãos desses heróis, mas também nas de outros, como os dois jovens, que, apesar de crescerem num mundo quase sem perspectivas, demonstravam o desejo de viver, de desafiar a morte com o que lhe é oposto: a força, a intemperança e a beleza.

O romance é perfeito, a narrativa prende o leitor e as questões que vão surgindo como contraponto nos afligem a todo momento.

É de se admirar que um homem como Gombrowicz, que perdeu de modo inesperado sua pátria, exilou-se num continente distante, alguém que não freqüentou o circulo intelectual argentino enquanto esteve no exílio e precisou manter-se ocupado com tarefas menores para poder sobreviver, tenha se tornado um dos grandes autores do século XX.

Pornografia
Witold Gombrowicz
Tradução do polonês de Tomasz Barcinski
Companhia das Letras, 204 páginas

Quarta-feira, Junho 03, 2009



"Cadê Ana Prudenciana, Vitalina?"

Narradora goiana beira o épico em romance contagiante

Maria Eloá de Souza Lima é escritora goiana, mora em Jataí, cidade de 85.000 habitantes no sudoeste do estado de Goiás, a 327 quilômetros de Goiânia. Autora de três livros: Serra do cafezal (retratos e lembranças), Serra do cafezal 2, (outros retratos, outras lembranças), dois volumes que traçam a história da ocupação do sudoeste goiano empreendida por desbravadores que vieram de Minas Gerais (como se pode observar pelo título, trata-se de livros sobre as origens e memórias de uma região no centro-oeste brasileiro); seu terceiro livro chama-se Ana Prudenciana, é sua primeira e única investida na ficção. Recebi-o da própria autora há mais ou menos três anos, ocasião em que passei por Jataí. Como naquele momento tinha muitos compromissos com a universidade, deixei o livro de lado; aguardava o momento oportuno para apreciá-lo. Qual não foi minha surpresa quando o li recentemente.

Dona Eloá, como é conhecida na cidade, é exímia contadora de histórias. Lembrei-me, ao ler seu livro, do texto “O narrador, considerações sobre a obra de Nikolai Leskov”, de Walter Benjamin, onde o filósofo discorre sobre a arte de narrar e compara o trabalho do narrador ao de um artífice. Citemos um trecho do ensaio: “a experiência que passa de pessoa em pessoa é a fonte a que recorreram todos os narradores. E, entre as narrativas escritas, as melhores são as que menos se distinguem das histórias orais contadas pelos inúmeros narradores anônimos.” No texto, Benjamin aponta a narrativa como uma experiência coletiva, chega a dizer: “quem escuta uma história está em companhia do narrador; mesmo quem a lê partilha dessa companhia. Mas o leitor de um romance é solitário”. O filósofo distingue a narrativa próxima à oralidade da narrativa de romance, classificando a primeira como experiência coletiva, enquanto a segunda já teria perdido a mística do narrador oral e refletiria a solidão do ser humano fragmentado, presente num gênero que já não daria conta do todo. Não deixa de comparecer, em parte, na formulação de Benjamin, ecos da Teoria do romance, do “jovem” Lukács; mas isso é outra história.

O livro de Maria Eloá possui esse narrador em vias da oralidade, que, na verdade, como acentuou o filósofo, encontra-se em extinção. Ana Prudenciana recupera essa tradição que faz parte da literatura desde a mais distante poesia épica.
O livro, em primeiro plano, apresenta uma narradora ouvinte, de quem não sabemos o nome, uma mulher em viagem pelo interior, pelas fazendas, alguém que se movimenta país adentro a recolher histórias. Hospeda-se numa fazenda e, em duas noites, escuta da voz da velha Vitalina a história do passado da fazenda, de Maria Imaculada e suas filhas, de Zé Pedro e sua filha bastarda Ana Prudenciana, e tantas outras narrativas. Vitalina não se cansa de narrar durante a noite inteira, sempre escoltada pelas duas irmãs, semelhantes a ela e também idosas: mulheres de outros tempos, que viveram praticamente em regime de escravidão. As duas já ouviram o périplo muitas vezes, mas não deixam de demonstrar prazer em ouvir uma vez mais.

Num pernoite, já quase ao amanhecer, quando todos se recolhem, inclusive a narradora, sabemos de outra história contada por ela mesma, colhida numa viagem a cavalo. É a vez de ouvirmos um velho peão que mergulha nas reminiscências de um amor proibido vivido por Amaro, a emboscada para matar o amante, sua reação e a consequente morte. A história é contagiante.

O terceiro livro de Maria Eloá filia-se à tradição roseana. Na literatura brasileira contemporânea praticamente não existem autores que tenham tentado seguir a trilha desbravada por Guimarães Rosa. A escritora de Jataí não teme percorrer esse caminho. Ela trabalha artisticamente a linguagem falada e atinge alto nível.

Eis dois trechos:

“Faz muitos anos, eu era ainda nova, passou por aqui um tal de Pedro Matos, vendedor de tropa. Esse homem era dono da Fazenda da Barca, lá no sertão do Uruquara. A tropa dele era famanã de boa, cavalos e burros. Dessa Vez, o sô Eraque até comprou um alazãozão, cavalo bonito toda vida, e um burrão rapé chamado Rompedor. O alazão ele deu de presente para a dona Elísia, que o cavalo era manso de silhão e tinha uma marcha macia que dava gosto. De noite, lá na sala, com aquele homem de fora contando causos, a conversa estava animada.”

Amaro reagindo à emboscada:

“De repente, o Amaro apontou lá na janela de revólver apontado. E foi só pêêêêi!... pêêêêi!... O Ribamar caiu de costas para dentro do curral sem ter tido tempo de dizer um ai. O Aristides caiu de bruço dentro do pátio, com um jabro na cabeça, e ficou lá, estrebuchando no meio de u’a moita de maravilha vermelha. O Adão Cabaça, O Amaro ficou com dó de atirar. Conhecia a besta, sabia que ele tinha um manadão de filhos pequenos e de filhas-moças. Pobre que só vendo, mal dava conta de dar o que comer pr’aquela turma.”

Nos dias de hoje, alguns estudiosos de literatura e até mesmo alguns escritores acham impossível escrever romances como nos “velhos tempos”; dizem que é preciso experimentar novos formatos, opinam que a narrativa “tradicional” está esgotada. Na verdade, Dona Eloá vem provar que a boa literatura está mais viva do que nunca e que, em suas mãos, atinge ainda maior vulto.

O livro é de edição da autora, com participação de um incentivo cultural da Prefeitura de Jataí. No entanto, ainda assim, Dona Eloá conseguiu editar Ana Prudenciana fazendo muito sacrifício.

Seria bom que algum editor de São Paulo ou do Rio olhasse com mais cuidado a literatura feita fora dos grandes centros. Será um grande prejuízo para a cultura brasileira caso livros como o de Dona Eloá caiam no esquecimento.

Ainda é tempo de dar valor a quem merece. Maria Eloá de Souza Lima é uma escritora de 86 anos.

Contatos com a autora: Av. Benjamin Constant 1041 – CEP. 75800-000 Jataí – GO. Tel. (64) 36312681

Ana Prudenciana
Maria Eloá de Souza Lima
Editora do autor, 262 páginas
Incentivo cultural: Prefeitura de Jataí